sábado, 24 de setembro de 2011

Trecho da poesia : Num Meio-Dia de Fim de Primavera

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de perna para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

 
Fernando Pessoa

Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás . . .
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem . . .
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras . . .
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo . . .

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo    . . .

Eu não tenho filosofia : tenho sentidos . . .
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar . . .

amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar . . .

Fernando Pessoa

Troca

Se o amor  é troca
ou louca entrega ,
Discutem os sábios
entre os pequenos
e os grandes lábios.

Paulo Leminski

Uma parte de mim

Uma parte de mim
É todo mundo.
Outra parte é ninguém:
Fundo sem fundo.

Uma parte de mim
almoça e janta:
Outra parte se espanta.

Traduzir uma parte
Na outra parte
Que é uma questão
De vida ou morte
Será arte?

Ferreira Gullar

Poética 1

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo

À oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte

Outros que contem
Passo por passo :
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço :
-- Meu tempo é quando ? --


Vinícius de Moraes

Das coisas que mais queria

Queria dizer-te da noite
Queria falar-te do dia
Queria que fosses a noite
Do dia que em mim morria
Queria que fosse meu
O teu primeiro pranto
Queria que fosse teu
O meu primeiro canto
Queria que fossem tuas
As mãos que cedo encontrei
Queria que não se perdessem
As mãos que ontem te dei
Queria que a vida em ti
Fosse um eterno mar de alegria
Queria em teu sorriso
Navegar em cada dia
Queria que não te esquecesses
Das vezes que te encontrei
Queria que não morressem
As coisas que te falei
Queria não ver-te partir
E nunca dizer adeus
Queria que tudo entendesses
Ao ver os meus olhos nos teus
Queria te ver junto a mim
Nessa noite branca de lua
Queria ouvir tua voz no silêncio dessa rua
Queria somente dizer
Das coisas que mais queria
Queria enfim que soubesses
O quanto eu te queria . . .

Vinícius de Moraes